Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia revelam mais um cenário cruel da saúde no País: cerca de 80% das crianças brasileiras que não enxergam ou vêem muito pouco foram vítimas de doenças que poderiam ter sido evitadas

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“Sabe quando você tem a sensação de que nadou, nadou, e morreu na praia? De que chegou no fim da festa e já não tinha mais nada para aproveitar?” A frase rasga o coração de quem a ouve. Descreve com crueza e de forma terrivelmente precisa o desfecho da sucessão de tragédias que terminou com a condenação da jovem fluminense Ester Carneiro a viver na escuridão. Ester é cega. Não enxerga porque é mais uma das crianças brasileiras vítimas de um sistema de atendimento que ainda falha em proteger os bebês de doenças que levam à cegueira, mas poderiam ser evitadas.

Segundo levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia que acaba de ser divulgado, 77 mil jovens vêem nada ou pouco. Cerca de 80% dos casos eram preveníveis. Como teria sido a cegueira de Éster se ela não tivesse caído na engrenagem errada da saúde pública nacional. A menina nasceu prematura, condição que predispõe a uma condição chamada retinopatia da prematuridade. Foi dada como cega, assim como recebeu a sentença de que não andaria nem falaria. Não estava cega e hoje, aos 14 anos, fala e se locomove. A inconformidade com os diagnósticos foi o que motivou os pais, Elienai e Eliane, a entrar em um ir-e-vir de hospital em hospital que só terminou sete meses depois do nascimento da filha, quando finalmente encontraram assistência especializada. Mas era tarde. Se tudo tivesse acontecido como mandam os livros de medicina e a decência no atendimento, a visão de Ester poderia ter sido preservada com um procedimento reconhecido (aplicação de laser na retina) cujo único requisito para dar certo é a aplicação até 48 horas depois do diagnóstico. Por isso o desabafo do pai ao resumir a frustração de ter lutado tanto – e ter chegado a um porto seguro tarde demais.

Gabriel, cinco meses, felizmente escapou à sina e é o exemplo mais claro de que é possível evitar destinos como o de Ester. Nascido na 24a semana de gestação, está sendo atendido em um centro de primeira linha – o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/Fiocruz, no Rio de Janeiro. Recebeu o diagnóstico e, um dia depois, foi operado. “Ele está sendo bem acompanhado. Os médicos me dizem que está evoluindo bem”, conta a mãe, Tassia Marques.

Crianças cegas por absoluto descaso fazem parte da lista de mazelas nacionais com as quais é impossível não se indignar e se entristecer. Muitas vezes, há negligência em cuidados que deveriam ser básicos, como um pré-natal bem feito. Entre as principais causas de cegueira infantil estão, por exemplo, doenças infecciosas transmitidas da mãe para o feto. Entre elas, a toxoplasmose. A enfermidade pode ser identificada na gestação por meio de um simples exame de sangue e, em caso positivo, há tratamento. “É feito por meio da administração de um antiparasitário ao longo do primeiro ano de vida da criança”, explica a oftalmologista Andrea Zin, integrante do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e pesquisadora do Departamento de Neonatologia do Instituto Fernandes Figueira.

O teste do reflexo vermelho, conhecido como teste do olhinho, é outro recurso de fácil realização e que, se fosse aplicado a todos recém-nascidos, como manda a lei em dezesseis dos 26 Estados brasileiros, também evitaria muitos dos casos de cegueira ou perda importante de visão decorrentes de catarata congênita, tumor de retina e retinopatia da prematuridade. “Porém, o exame é pouco difundido entre os pais”, lamenta a oftalmologista Keila Monteiro de Carvalho, diretora do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.

Keila e Andrea estão entre os especialistas que há anos batalham pela melhora na assistência a mães e filhos. “É preciso desenvolver uma rede de atendimento capaz de diagnosticar e tratar as doenças, criar centros de referência em todo o país”, diz Andrea. Mas as iniciativas não saem do lugar. “A gente conversa, conversa, mas uma mudança de governo, por exemplo, faz tudo parar”, diz. Enquanto isso, resta aos bebês e suas famílias a sorte, quem sabe, de encontrar um bom lugar para ser assistido.  

 

Fonte : IstoÉ (site) 

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